Depois da escola

Não
sei ficar sem o despertador, tanto faz o tradicional ou do celular, tem que ser
a música chata, aqueles toques toscos ultrapassados, se colocar um som que
gosto volto a dormir mesmo que seja Linkin Park. Até no domingo preciso de
horário para acordar, é um vício? Não dá pra saber, só sei que preciso daqueles
minutos para pensar em tudo, do passado ao presente ao futuro, ao desconhecido.

Às
vezes me flagro pensando no colégio, nas coisas que deixei passar, as conversas
em que estive emocionalmente ausente, nas lágrimas inúteis que derrubei, nas
pessoas com quem não deveria ter gasto meu tempo, seja uma paixão, um amor ou
uma amizade. Em algum momento deixam de importar, deixam de fazer parte da
construção psicológica, e definitivamente a noção de solidão aumenta de uma
maneira apavorante, no entanto, se por sorte com amparo de alguém que nem sabe
da história, a vida segue em frente e toma rumos que, na escola, não
conseguimos enxergar quando olhamos nosso presente, talvez algum erros valham a
pena.

De
repente o que fica são as lembranças e questões inacabadas que provavelmente
nunca vão voltar para você, ao menos não do jeito que imaginávamos que seria em
nossos diários, na última folha do caderno, na carteira rabiscada várias e
várias vezes.

O
garoto com o violão, a garota com rosto de porcelana e modos perfeitos, o nerd
timidamente engraçado, o galã quase tão lindo quanto um ator de novelas ou
Hollywood, a garota perdida dos cabelos vermelhos que fala com todos, aqueles
que na época acharam que foram menos afetados pelo nicho escolar e não serão
lembrados por muitos.

Olho
para o relógio e me espreguiço. Encosto a cabeça novamente no travesseiro só
mais uns minutinhos e penso nesses dias. Penso no caos, o frio na barriga,
quase sinto a sensação esmagadora de encarar mais um dia não pela primeira e
acredito que nem a última vez me pergunto quando a insegurança vai embora.
Quando vou deixar aquela garota de cabelos vermelhos e roupas dois números mais
largas ir embora. Todos já foram, menos os pouquíssimos amigos que conseguiram
manter a promessa de não se separar, tirando eles, todos já foram ou pelo menos
fingem, não sei para ser aquilo que tanto desejaram ou se somente para
esquecer quem, um dia, foram.

Antes de realmente levantar e encarar a
vida depois da escola,
um último pensamento sobre o assunto: E se eu tivesse gargalhado mais e enfiado todas as
lágrimas em um buraco lamacento? E se não tivesse colado na prova de
matemática? E se tivesse começado a escrever no momento em que decidi que
aquele era meu muro das maravilhas? E se eu tivesse acertado o rumo na primeira
tentativa? 

Não
sei. Tão simples a resposta. 

Talvez
se todos os e se não existissem, pois
fiz tudo certo, não teria tantas questões a pensar e não teria demorado tanto
para começar a fazer algo por mim. Mas também não teria passado pelos lugares
que moldaram um pouco mais do que sou hoje e nem sei se teria quem me deixasse
ter mais esses minutinhos antes de trazer um xícara quente com café fresquinho
e pão na chapa, talvez eu nem poderia ser a mulher que pode tomar café da manhã
na cama assistindo desenhos e com tantas questões importantes ou não relevantes
para pensar e divagar.
 

Aquela
garota dos cabelos vermelho, castanho, loiro, rosa, preto, em tantas cores representando suas ideias e humor, quis sentir por muito tempo que somente em sua companhia estava
melhor, poupando tanto amargor das decepções e assim foi. Até que um dia
descobriu que já não estava tão contente em ficar bem sozinha e o tempo, a oportunidade e os olhos abertos de quem teve que moldar a si mesma de novo, pois assim somos, a levou a vários outros motivos para sorrir, em um caminho totalmente novo e bem vindo.




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21 comentários sobre “Depois da escola

  1. Leticia Golz disse:

    Oi, Thaise
    Nossa, amei seu texto. Reflete em muitas de nós que já deixamos o colégio. Eu me sinto realmente insegura depois, e pensei: E agora, o que vou fazer?
    Mas por outro lado nunca olhei para aquele tempo me arrependendo de algo, porque acho que tudo serviu para aprender. Tem doideras que fiz naquela época que hoje não faria rs Mas não me arrependo, pois fui muito feliz.
    Bate tanta saudade, né?

    Blog Livros, vamos devorá-los

  2. Thatyane disse:

    Oi, adorei o texto, me lembrou a minha infância e minha epoca de ensino médio, bateu até uma saudade, uma saudade boa, que aquece o nosso coração. O seu texto foi tocante par mi, me remeteu ao passado, a momentos alegres e divertidos, a coisas que infelizmente não voltam mais, mas é sempre bom parar e relembrar esses momentos.
    bjus

  3. Karine Fernandes disse:

    Confesso que…. Detesto despertador. Kkkkkk
    Amo dormi e dormi e dormi. Mas tambem sinto essa falta da escola e de horário para isso. Quando fiz minhas faculdades era a noite então não tinha despertador kkk.
    Amei o texto parabéns.

    Beijos

  4. Gabriela Cerqueira disse:

    Olá, adorei o texto, no ensino médio sempre estudei a tarde, então…KKK, eu adorei meu ensino médio, foi maravilhoso e sinto falta dele, não tinha preucupações como tinha hoje, a única coisa que me fazia a cabeça era a próxima cor do meu cabelo, vermelho,azul, laranja, assim como você kkk

  5. Atraentemente Evandro disse:

    A grande lição disso tudo é que temos que viver cada segundo intensamente e como se fosse o último. Realmente tantas coisas, tantas pessoas e tantas oportunidades vão ficando para trás. Ainda bem que inúmeras outras vão surgindo pela frente e nunca é tarde para fazer tantas coisas que sonhamos. Texto perfeito.

    *☆* Atraentemente *☆*

  6. Livreando disse:

    Seu texto me lembrou perfeitamente o ambiente da época que estudava no ensino médio. Todas aqueles sensações de que o mundo iria me tragar, todas as decisões que pareciam ser para sempre, todos os sentimentos intensificados. Adorei o texto.
    Bjim!
    Tammy

  7. Thayenne Carter disse:

    Olá,

    "Até que um dia descobriu que já não estava tão contente em ficar bem sozinha e o tempo, a oportunidade e os olhos abertos de quem teve que moldar a si mesma de novo, pois assim somos, a levou a vários outros motivos para sorrir, em um caminho totalmente novo e bem vindo." Amei esse trecho! Na verdade, o texto todo tá muito bom, parabéns!
    Como tive uma adolescência mais "responsável" não aproveitei tanto e nem tive tanto tempo para sentir tanto. Mas, compreendo agora como é ser atacada por todos os lados por sentimentos.

    Beijos,
    entreoculoselivros.blogspot.com.br

  8. Coleções Literárias disse:

    Olá Thaise.
    Não sabia que você é colunista aqui.
    Ameiiiiii seu texto, ficou simplesmente maravilhoso, me sinto assim diversas vezes, me pego pensando em coisas que não vão voltar, coisas que eu disse e me arrependi e outros que me arrependi por não dizer.
    Agora o lance do despertador, não sei se faz parte apenas do texto ou se é verdade, mas eu também sou assim de colocar aqueles toques bem chatinhos e irritantes se não volto a dormir, mas sabado e domingo não tem despertador não kkkk

  9. Vivianne Sophie disse:

    Olá Thaise,

    Dá uma nostalgia pensar no colégio mesmo, embora eu sinta mais falta dos amigos do que da rotina e do local em si. Ainda assim, a universidade tem suprimido essa falta , adorei o texto, muito reflexivo.

    Abraços,
    Cá Entre Nós!

  10. Krisna Carvalho disse:

    OLá, Thayse! Tudo bem?

    Fui lendo seu texto e lembrando, não só doas tempos de colégio, mas da própria graduação mesmo. Tantas coisas acontecem e acabam por moldar quem somos, o que queremos… Não é? Por isso sempre penso que não mudaria nada do que fiz, mesmo os erros. Cada coisinha me transformou no que sou hoje, e quando a gente olha no espelho e se sente feliz com o resultado.. Fica claro que tudo valeu a pena.

    Beijo

    Leitoras Inquietas

  11. Anônimo disse:

    Ooi! Boa reflexão. Eu quando penso no tempo do colégio, reflito sobre a possibilidade de eu ter aberto os olhos mais cedo, para aproveitar mais as amizades que valiam a pena, sabe? Eu era muito fechada e sem paciência hahaha Não era muito legal com as pessoas. Mas, graças a Deus eu consegui abrir os olhos no final do ensino médio e aproveitei os últimos meses com as pessoas que só queriam me fazer rir e me conhecer melhor.
    Beeijos

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